Chamados para o Altar
    Experiências de Fé
    Profecias
    Livros
    Notícias

 

 

Discurso Democrático

Jornal O LIBERAL, 10 de março de 2010.

Mais uma eleição à vista, os mesmos discursos de sempre. No programa “A voz do Brasil” desta semana, um parlamentar proclamava no Congresso que o povo saberá fazer a “verdadeira cassação” durante as eleições de outubro. Segundo o tribuno, os eleitores brasileiros resolverão, nas urnas, o problema dos maus políticos. Francamente, não creio.

Primeiro, não creio porque falta consciência eleitoral. O povo brasileiro ainda está no ensino fundamental do curso de cidadania. E a culpa não é sua. Por muitos anos nossa gente foi ensinada a ficar quieta perante seus governantes. Numa visita presidencial a Belém na década de 80, enquanto José Sarney discursava sobre democracia no pátio do Centur, policiais militares batiam em manifestantes na esquina da Gentil com a Ruy Barbosa. Politicamente, uma história recente.

Mesmo hoje, isso não é muito diferente. “Razões de Estado”é a capa que esconde muitas verdades. No Brasil, eleição ainda é um tipo de feira, onde se ganha no grito. Vence a aparência, a campanha, a influência. Perde a essência, a motivação, o caráter.

Esse efeito da Ditadura nos faz enxergar políticos como divindades. Eles só têm relevância porque são eleitos, ao mesmo tempo em que a eleição os eleva acima de todos. Daí, as cenas bizarras que assistimos: sujeito é apanhado com a mão no cofre, e garante que estava polindo a caixa-forte. Outro tem contas milionárias no Exterior, mas jura que não são dele os dólares depositados em seu nome, endereço e CPF.

Enquanto isso, o pobre eleitor, pelo mesmo efeito, perde a noção do dinheiro público e esquece em quem votou há dois anos. A máxima “rouba, mas faz” é o primeiro item do manual do eleitor comum. E mais ainda: “faz” significa: faz o que parece conveniente ao eleitor. Sei de prefeito, por exemplo, que a primeira obra que realizou foi o asfaltamento de sua própria rua. Aí “rouba, mas faz” para o eleito comum significa “rouba, mas faz o asfaltamento da rua onde ele mora e eu também”.
Francamente, não acredito na democracia com esse discurso de coisa perfeita. Pode ser o menor do males entre os piores. Mas, no Brasil, virou prato perfeito para vigaristas. Discursos parlamentares que endeusam a democracia no Brasil chegam a causar asco. Não há razões para isso: temos um STF político, nomeado pela Presidência da República. Anos passam, e o País não sai do inferno astral da corrupção. Toda hora tem gente sendo flagrada assaltando o dinheiro público.

Acredito que devemos evoluir. Não entra na minha cabeça essa história de modelo perfeito atribuído à democracia. Vai contra a dialética, contra a filosofia, contra a inteligência mediana de qualquer mortal. Penso, sim, que a democracia – definida pela liberdade de o povo escolher diretamente seus representantes – é uma boa ferramenta. Mas precisa ser amolada. No Brasil, enferrujou e está contaminando.

Nem a Deus se atribui a perfeição nesse aspecto. Mesmo sendo a Imutabilidade um dos atributos divinos, a Bíblia está cheia de expressões que caracterizam uma mudança de atitude na Divindade. Ainda que certos teólogos justifiquem que verbos como “chorar” e “arrepender” sejam utilizados na Bíblia apenas para nossa compreensão, o certo é que eles remetem a uma mudança de estado. Como pode a democracia, ao modo como a concebemos, ser o último estágio da evolução de uma sociedade? Não é. Isso está provado.

Precisamos avançar no processo democrático. Se necessário, criar novos conceitos. Conceitos que nasçam da boa experiência. Nunca apenas ideais. Isso não enche barriga.

Rui Raiol é pastor e escritor (www.ruiraiol.com.br)




 
Últimas postagens

O papel da Igreja nas eleições

Como melhorar uma obra-prima?

Ver-o-Livro